Mochilão & Trabalho voluntário: uma viagem diferente e do bem - Por Fayson Merege

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Viagem

Mochilão & Trabalho voluntário: uma viagem diferente e do bem - Por Fayson Merege

10 DE ABRIL DE 2017

Na busca por um significado maior nas minhas viagens e na vida, comecei a buscar por trabalhos voluntários na América do Sul e assim poder de alguma forma ajudar o próximo. Minhas viagens começaram a ter mais sentido quando optei não só pelos trabalhos voluntários em ONG’s, mas também com a possibilidade de fazer trocas de trabalho por hospedagem e/ou alimentação nos hostels. Mas a verdade é que nem todos estão aptos para fazer trabalho voluntário, doar seu tempo em prol de uma causa de “graça”. É preciso coragem. É preciso determinação. É preciso deixar o ego de lado.

Minha viagem ao Peru e Bolívia iniciou-se com um trabalho voluntário na Fundação Santa Martha, uma ONG que abriga cerca de 56 crianças (meninos e meninas) carentes e em situações de risco. Além de fotógrafo, sou professor de educação física e meu plano de trabalho na Fundação foi realizar atividades recreativas e psicomotoras. Minha função como voluntário era acordá-los as 6h da manhã, servir o café, levar e buscar as crianças de 6 a 10 anos na escola pela manhã, servir o almoço e jantar e ajuda-los nas tarefas escolares. A rotina era bem puxada. E após os 20 dias com as crianças, foi inevitável criar um laço afetivo e isso me permitiu compreender melhor a realidade a qual estava inserido.

Trabalho voluntário é doação de si mesmo. É a descoberta de outros mundos.

Um dos motivos em ter ido pra Fundação Santa Martha é porque amo crianças e definitivamente eu aprendo muito sobre a vida com elas. Eu não voltei o mesmo para o Brasil.

 

A plenitude de uma vida plena não está no saldo disponível para saque.

Ficar com as crianças e conviver com a rotina delas não só ajudou a melhorar o meu péssimo espanhol (risos), mas também, a enxergar o mundo sob uma nova ótica. Os olhares sinceros e os abraços apertados me fizeram ter um olhar mais sensível. Eu me vi totalmente envolvido e com a necessidade de comprometer-me com a realidade local, em saber o “porque” de alguns estarem ali. É inevitável não envolver-se de alguma forma com conceitos de compreensão, justiça, direitos humanos, inclusão social e principalmente: AGRADECIMENTO.

 

No trabalho voluntário você deixar de ser o que você é e permite que o próximo seja algo. A troca só acontece se o seu coração estiver aberto para o novo. Saber que todos nós podemos ensinar e aprender algo novo. Talvez você até tenha a satisfação em transmitir o que você sabe para ajudar a vida de outras pessoas. E assim você acaba aprendendo muito mais sobre SOLIDARIEDADE e COMPROMISSO SOCIAL.

Definitivamente dinheiro não é um empecilho se seu espírito é aventureiro e se seu desejo é viajar. A palavra é prioridade. Do que adianta trabalhar 24 horas por dia de segunda a segunda se você muitas vezes se sente um “frustrado”? Eu não sei dizer o que minhas viagens são ou o que elas representam no “aqui e agora”. E “aqui” significa jornada. A busca pelo auto-conhecimento. Vivo entre a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

Meu melhor presente de Natal e aniversário (29/12) em 2016 foi dividir meu tempo com todas essas crianças. Ganhei os melhores abraços e os sorrisos mais singelos.

Após ter realizado o trabalho voluntário, iniciei minha jornada por Peru e Bolívia com o objetivo de visitar/conhecer lugares desconhecidos, inexplorados por muitos brasileiros e mergulhar na cultura local.

 

Laguna 69 – Ancash – Parque Nacional Huscarán (foto premiada na National Geographic Brasil)

A região de Huaraz – Ancash no Peru foi um dos principais destinos na viagem por suas opções com trekkings, montanhismo e aventura. Foram aproximadamente 7 horas ida/volta caminhando até a Laguna 69 à 4650m de altitude. Fiz muitas paradas pra fazer fotos e principalmente para parar e observar o cenário que mudava a cada passo dado. Eu sou fascinado por belezas naturais e estar em contato com a natureza pra mim, traz um acalento pra alma.

Também visitei o Glaciar Pastoruri a 5k de altitude e segundo os guias locais, a estimativa é que toda a geleira desaparecerá em no máximo 10 anos. Quando me aproximei e contemplei todo aquele cenário, não contive as lágrimas. Foi emocionante e triste ao mesmo tempo. Não sei explicar.

 

Huacachina – Ica | Peru (foto premiada pela National Geographic Brasil)

Uma das surpresas boas da viagem foi ter ido a Huachachina, o “óasis” no meio do deserto peruano. Foi lá que tive a noite mais linda da minha vida, ao dormir no relento sem barraca, somente com meu saco de dormir. Era noite de lua cheia e o céu estreladíssimo. Vi o pôr da lua ás 5h da manhã e fui “acordado” com o nascer do sol às 6h30min. Pude caminhar longas horas pelas dunas, observar o contraste do amarelo da areia com o azul do céu e o branco das nuvens. Deu tempo de se aventurar com sandboard, fazerum passeio maneiro de buggy e apreciar o pôr do sol que caía no horizonte e pintava o céu e as dunas com um tom avermelhado e laranja.

 

A fotografia me ensinou algo muito importante: OBSERVAR

Às vezes é preciso esquecer a câmera ou o celular e apenas observar. Tem fotos que existirão pra sempre apenas em nossa memória.

 Playa Roja – Reserva Nacional de Paracas | Peru

Há apenas 1h de ônibus de Huacachina – Ica está o balneário de Paracas e a Reserva Nacional de Paracas: a principal área de proteção ambiental do país. De todos os lugares que visitei no Peru, aqui foi onde pude experimentar a liberdade de desbravar um lugar por conta própria. Não gosto muito de fazer tour por agências (embora saiba que alguns lugares são necessários). Sabia algumas informações e chegando logo procurei alugar uma bike, o que me custou 30 Soles o dia todo (+/- R$30). Fiz todo o circuito de praias (que dura em torno de 2h pelos tours) em aproximadamente 8h de bicicleta. Mas não há nada melhor do que ter o seu tempo para parar, respirar, fotografar, admirar, sorrir, chorar, pular de alegria, se maravilhar. Fiz tudo com muita calma e observando cada detalhe do trajeto sem me preocupar com o tempo.

 



Saia dos atalhos e pegue aquele longo caminho cheio de rochas e espinhos para deixar nele as pegadas da coragem. Não deixe o medo te paralisar. O que te move: medo ou coragem?

Saindo da região Sul fui ao norte do Peru passando pelas praias, cidades históricas e um pouco da Amazônia peruana. Passei por cidade como Chiclayo, Trujillo, Huanchaco, Mâncora e alguns balneários próximos, Chachapoyas e Tumbes (divisa com o Equador).

 

Catarata Gocta – Chachapoyas | Amazônia Peruana

Com poucas informações fui atrás da Catarata Gocta na região da Amazônia Peruana, a qual diz sere a 3ª maior do mundo com suas duas quedas totalizando 771m. Embora tenha uma caminhada de 14km ida/volta é preciso fechar o tour com alguma agência em Chachapoyas. O tour começa na praça principal e te leva até o povoado de Cocachimba após 1h de Van. A altitude dificulta o caminhar, mas, todo o esforço é valido pelo cenário até chegar à base da primeira queda e sentir a água gelada que cai acima dos 2 mil metros de altitude.

Vizinha a Chachapoyas encontra-se o povoado de Huancas e o Cañom del Sonche, com 11km de extensão, uma profundidade de 963m e você pode ir sozinho. O prazer de ter visitado os dois lugares na baixa temporada (janeiro) foi não ter a presença de vários turistas/viajantes. Pra eu que gosto do silêncio e o barulho da natureza, foi perfeito ouvir o cantar dos pássaros, sentir o vento gelado e ter meus momentos de solitude enquanto fotografava.

  

Conhecer as Raimbow Mountain foi à realização de um sonho. E pra falar a verdade, achei mais incrível que Machu Picchu. Mas calma, não estou desmerecendo uma das maravilhas do mundo e nem o direito de habitar os sonhos dos viajantes mundo a fora. Pelo contrário, visitar a cidade dos incas foi uma das coisas mais mágicas que já fiz – e até jurei que pisarei lá novamente.

 

Ter contato com a comunidade de Pitumarca e conviver com as crianças que mal falavam espanhol, me fez perceber algo importante: as pessoas não são como o que você vê por fora, é preciso enxergar o que há dentro. Aparência nunca foi sinônimo de alma bonita. Tem pessoas bem vestidas que chovem ruindade e pessoas mal notadas que jorram bondade.

Henry Thoreau disse: “Riqueza é a capacidade de experimentar a vida plenamente”.

Eu voltei com a certeza de que não preciso de muito para viver. O básico me basta e a oração de Jesus ao dizer: “Dá-me o pão de cada dia” nunca fez tanto sentido na minha vida. Eu concluí que é um erro viver para acumular coisas desperdiçando meu tempo com coisas fúteis.

Após 60 dias no Peru atravessei a fronteira Puno – Copacabana e finalmente chegava à Bolívia, que por sinal sempre me encantou por sua cultura. Um dos meus desejos era poder caminhar pelas ruas e documentar com fotos o dia a dia entre as cidades a qual iria passando. Minha visita ao país durou 25 dias entre Copacabana (Isla de Sol), La Paz, Salar de Uyuni, Sucre, Potosí e Santa Cruz de la Sierra.

 

Em La Paz fiz uma parceria com a Altitude Adventure, na qual faria algumas fotos/vídeos da Death Road e Vale Chacaltaya e assim ganhei desconto nos tours. A adrenalina de descer à famosa Death Road é indescritível. É emoção do início ao fim. E também fiquei muito feliz por subir a montanha mais alta até hoje: Chacaltaya à 5435 metros de altitude.

Sou movido por adrenalina, guiado por desafios e superar meus limites é meu objetivo. Isso faz com que eu tenho um autoconhecimento sobre meu próprio corpo. Atividades extenuantes e climas severos me divertem. Sempre volto renovado!

 

É saber enfrentar as dificuldades que faz você ficar mais forte.

Buscando entender a realidade da pobreza na Bolívia, saí às ruas fotografando e tentando conversar com algumas pessoas. Foram horas observando as pessoas nas praças, nas ruas e em cada esquina. A pobreza na Bolívia é bem exacerbada. Logo que você chega às ruas se depara com vários pedintes e moradores de rua. A miséria é recorrente no país e vista facilmente. Quando falo em miséria, não estou falando das pessoas pobres, mas das que passam fome. É uma realidade triste de se ver...

 

Eu acredito que nós podemos ser a mudança do mundo. Que de alguma forma nós podemos fazer algo pelo próximo, mudar a realidade e influenciar destinos.

Todos nós podemos doar um pouco do nosso tempo em prol do próximo.

 

“Nesse mundo de ilusões onde passamos nossos dias

Não posso ser quem eu sou

Minha vida se confunde meio a cenas vazias

De ódio e de amor

Onde se convence o povo a comprar o que não precisa

Meu Deus, aonde é que eu estou?”

 

Fotografar cidades como Sucre e Potosí trouxe conflitos e reflexões internas. Conviver com pessoas simples que compartilham o “pão de cada dia” sem pensar no amanhã, me fizeram valorizar a importância de agradecer as mínimas coisas que tenho no dia a dia. Muitas vezes não sou somos gratos e reclamamos de tudo, enquanto pessoas que não tem nada agradecem pela vida.

 

Deixei pra falar sobre o Salar de Uyuni por último, pois foi nele que vivi 3 dias incríveis com 5 italianos. O destino mais procurado da Bolívia por ter o maior deserto de sal do mundo, trouxe lições importantes. No meio do nada, sem internet, praticamente sem luz e um banho quente, tudo isso se torna supérfluo em meio a tanto cenários de uma beleza exuberante. Sal, areia, pedras, desertos, lagoas de várias cores, montanhas com picos nevados, vulcões, flamingos, bicuñas, viscacha e lhamas.

É superando seus limites que faz você crescer. É saber resolver os seus problemas que fará você desenvolver maturidade. É, desafia o perigo que virá e então você descobrirá a sua coragem. Arrisque sem depender do que vão te dizer.

Viajei durante 85 dias entre Peru e Bolívia e eu já não me (re)conheço mais. A vida é muito curta para deixarmos nossos medos guiarem nosso coração. Minha riqueza está sendo medida em histórias, em experiências e em pessoas. Sou rico por causa das pessoas que conheci e que de alguma forma me ensinaram algo importante e assim tenho buscado o verdadeiro significado da vida

 

Acordar para quem você é requer desapego de quem você imagina ser – Alan Watts



Fayson Merege é viajante e fotógrafo. Sua próxima viagem merece atenção: Ir a pé de Paris (França) até Munique (Alemanha). Tem uma vaquinha pra ele conseguir fazer um documentário. Você pode ajudar AQUI!
Instagram: @faysonmerege

 

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