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CONHEÇA PUNJAB, UM DOS DESTINOS MAIS LEGAIS DA ÍNDIA - PARTE I


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CONHEÇA PUNJAB, UM DOS DESTINOS MAIS LEGAIS DA ÍNDIA - PARTE I

19 DE OUTUBRO DE 2017

PARTE I  | PARTE II

Alguns lugares surpreendem você. Mesmo para quem está na estrada há um bom tempo, existem locais que vão te tirar da sua confortável visão do mundo, tomar suas suposições e seus preconceitos, e colocá-los de cabeça para baixo. Eles levam você a acreditar que talvez ainda haja esperança no mundo.

Depois de alguns dias no Nepal, eu confesso que não estava nem um pouco animado em voltar à Índia. Meus dentes já estavam serrados na preparativa para ser estúpido com o primeiro piloto de tuc-tuc que cruzasse o meu caminho. 

Após uma escala em Delhi e diversas perguntas desconfiadas sobre o que faria em Amritsar, eu havia chego ao Punjab. No meu itinerário estava o Templo Dourado, alguns pratos veganos e talvez visitar a Wagah Border. Como fatalmente acontece na maioria dos casos onde esprememos dez cidades numa jornada de trinta dias, o tempo corre, perdesse muita coisa e lacunas ficam abertas. E eu, mesmo depois de anos, volta e meia continuo repetindo esse erro. Por querer tocar ainda a campainha do Dalai Lama nessa viagem, tive que abortar a fronteira com o Paquistão.

De qualquer forma, ainda que bastante curta, essa foi uma das principais experiências que pude ter na Índia. Eu continuo ainda muito ignorante em relação ao sikhismo, mas pelo menos agora sei que em certa parte do território indiano o que reina não são as buzinas, mas a gentileza.

 

 

A Índia e o Paquistão outrora eram uma só nação. Em uma das partições mais precipitadas e mal-consideradas que se possa imaginar, foi traçada uma fronteira entre linhas religiosas e o território acabou rasgado e dividido.

Drenada pela enorme tarefa de combater duas guerras mundiais, em 1947 o Império Britânico decidiu “deixar pra lá” o seu domínio de quase 200 anos sobre o subcontinente indiano. Na tentativa de impedir que a antiga colônia acabasse numa guerra civil inevitável entre hindus, muçulmanos e sikhs, o comissário britânico Sir. Cyril Radcliffe, advogado do País de Gales e presidente das Comissões de Fronteira, elaborou a separação. Ele recebeu dois meses para delimitar o que foi batizada de Linha Radcliffe, ou, melhor colocando, recebeu 60 dias para criar um novo país, basicamente.

Em um dos maiores intercâmbios de população da história, milhões deixaram tudo para trás e se moveram. Quase imediatamente, a violência religiosa explodiu em massa e por muito tempo nem mesmo Gandhi se fez ouvir. Aconteceu exatamente o que a partição se propunha à evitar. Dizem que a partilha é tão problemática e mal organizada que existem casas espalhadas pela fronteira onde você entra pela Índia e sai pelo Paquistão.

Sem qualquer consideração, a região do Punjab foi dividida entre os dois países. Vizinhos passaram a responder à presidentes diferentes. O Paquistão herdou mais de 60% da região. A parcela indiana foi fragmentada e se tornou três estados diferentes: Punjab, Haryana e Himachal Pradesh.

A cidade de Wagah, à 30 quilômetros de Amritsar e à pouco mais de 20 de Lahore - Paquistão -, foi literalmente cortada ao meio durante a divisão. Lá está a Wagah Border, a única passagem na fronteira entre os dois países. Após algumas guerras sem qualquer resolução, atentados e muita coisa por baixo dos panos, a ameaça de terrorismo ao longo desta fronteira tornou-se uma preocupação diária. Um constante ponto de inflamação para o potencial conflito.

Entretanto, ainda que mergulhado por todo o caos e suspeitas sobre a região, o Punjab tem algo melhor à oferecer. A visão periférica, midiática e pretensiosa me preparou para a guerra, mas eu encontrei outros motivos para escrever.

O Punjab é um lugar distinto, com sua própria língua, cultura e história. É algo que os Punjabis tem que explicar com freqüência. Ser uma pequena minoria entre um bilhão de pessoas é viver sempre afastando camadas de estereótipos, decorrentes não apenas de uma cultura mais amplamente difundida, mas de um desconhecimento da sutileza e sombras nele fixadas.

A primeira coisa que você nota, diferente do resto da Índia, são os turbantes. Símbolo de auto-respeito, bravura e espiritualidade para os homens, eles estão por toda a parte. Amritsar, aliás, é a casa e o centro espiritual da fé Sikh, a quinta maior e talvez a mais incompreendida religião do mundo.

Quem são os sikhs é, possivelmente, uma resposta que poucas pessoas que conheço saberiam me responder. Não saber os conceitos centrais, a intenção e os princípios de sua fé é algo que indica o quão ignorantes sobre eles nós somos.

Criado pelo Guru Nanak no século XV, o sikhismo acredita em um único Deus e baseia-se em três pilares: buscar conquistas através do trabalho de suas mãos, permanecer com Deus em mente todo o tempo e dividir tudo o que se tem com os necessitados. Para "facilitar" as coisas, em muitos casos essa crença é retratada como o resultado de uma fusão entre elementos do hinduísmo e do islã. Mas eu aposto que um sikh reprovaria essa sentença.

No coração de Amritsar está o Templo Dourado, o equivalente sikh ao Vaticano. Assim como Meca para o islã, para todo adepto é importante realizar a peregrinação para este templo ao menos uma vez na vida.

 

CONTINUA

- Guilherme Hoefelmann | Não Me Espera Pro Jantar

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