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CONHEÇA PUNJAB, UM DOS DESTINOS MAIS LEGAIS DA ÍNDIA - PARTE II


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CONHEÇA PUNJAB, UM DOS DESTINOS MAIS LEGAIS DA ÍNDIA - PARTE II

24 DE OUTUBRO DE 2017

PARTE I  | PARTE II

Os sikhs são fundamentalmente contra qualquer sistema de castas e crentes na tolerância religiosa. Tanto faz se você reza para Alá, Jesus Cristo, Krishna ou ninguém.

Todos são bem-vindos e convidados para remover seus sapatos, lavar os pés, cobrir suas cabeças e adentrar ao templo. Dentro desse local está o O Sri Guru Granth Sahib, a mais sagrada literatura da religião. E é em frente ao imenso lago artificial que estão sendo servidas, ininterruptamente por mais de 400 anos, refeições vegetarianas gratuitas à todos que se permitirem.

 

Além da importância religiosa, esse também fora palco de um dos principais episódios da história recente no Punjab. Quando ocorreu a fragmentação da Índia e a criação do Paquistão, os sikhs ficaram confinados entre um país de maioria hindu e uma nação islâmica. Mesmo com a tolerância religiosa no currículo, isso nem sempre agradou a todos, e, em 1984, o Templo Dourado foi tomado por extremistas armados até os dentes que exigiam a formação de um estado independente, o Khalistan. Indira Gandhi, então primeira-ministra indiana, agiu para deter a ação dos rebeldes ordenando a tomada do santuário com tanques e morteiros. Intitulada Operação Estrela Azul, a ação acabou vista por parte da comunidade sikh como um ataque à sua religião e crenças. O resultado foi o assassinato de Indira por dois de seus guarda-costas sikhs e uma onda de ódio e massacres envolvendo os devotos. Um ponto fora da curva para aqueles que prezam pelo bem estar comum.

 

 

Não precisei de muito esforço para chamar a atenção enquanto eu, vergonhosamente, tentava improvisar um turbante. Chamado de Kesh, esse pano brilhante e colorido é o que faz os sikhs serem reconhecidos em todo o mundo - ainda que essa prática esteja em declínio justamente por os tornar vítimas fáceis de preconceitos. Sorrindo e esbanjando simpatia, um policial me socorreu. Em poucos passos, e na escassez de turistas ocidentais no local, virei eu a atração. Branco, loiro, com uma camiseta estampada, uma câmera na mão e um turbante. Talvez eu devesse ter aproveitado e me lançado candidato a vereador naquele momento. Passei o dia daquela forma, e ainda que alguns nitidamente desaprovassem o meu estilo, a quantidade de sorrisos e saudações foi esmagadoramente maior. Talvez tenha sido engraçado para eles, motivo de piada. Ou talvez outros tenham visto como sinal de respeito, eu espero. Enquanto eu esperava meu almoço ou agarrava um tuc-tuc, recebia acenos e comentários. Ainda que possivelmente me julgando, eles não parecem estar odiando a “novidade” já que quando meu turbante estava mal posicionado ou ameaçando se desfazer, alguém se aproximava e tratava de “dar uma ajeitada”.

É claro, muito da Índia ainda está aqui. No começo você encontra o que vê em tantos outros lugares. As ruas barulhentas, as calçadas superlotadas, o caos descontrolado e consensual. Mas olhando um pouco mais fundo, você verá o quão diferente aqui é de outros lados indianos. Uma repreensão para aqueles que pintariam um país inteiro de uma só cor. Em Amritsar não existe a afobação por fazer negócio com você - com exceção dos, unilateralmente declarados por mim como meus inimigos mortais: os pilotos de tuc-tucs. Se em locais como Nova Delhi você passa a figurar como uma nota de gigante de dólar perambulando pela calçada aos olhos de praticamente todo mundo, aqui o respeito e o alívio dão o ar da graça. Existe uma estranha calmaria pairando sobre as ruas. Talvez isso seja reflexo do estado de Punjab ser um dos mais prósperos da Índia e com os menores índices de fome do país. Uma região fértil em um país muito seco faz muita diferença.

 

Eu peço permissão para entrar ao tanque de água do templo. Portando uma lança e com o dobro do meu tamanho, o guardião me concede com um sorriso e uma rápida instrução. Alguns templos hindus que encontrei pela Índia fecharam suas portas à não praticantes do hinduísmo. Aqui isso não faz o menor sentido. Todo sikhs que você vê foi batizado. Ele usa uma pequena espada como símbolo e sabe que tem o dever de proteger os outros, sem restringir crenças ou pátrias. E isso faz deles o que eles são: um povo que prega a paz e a moderação. Pessoas fáceis de se relacionar e preocupadas com você. Um contraste perfeito para uma região tão turbulenta. Eu imagino que é isso que todos nós queremos como seres humanos, certo? Ser tratado com respeito, ser tolerado apesar das diferenças e recebido com um sorriso no rosto. Faz parte da ideia eu retribuir e colaborar, como bom hóspede. Apesar de tudo o que aconteceu no Punjab e indiferente ao grau de ignorância em que nos encontramos em relação à essas pessoas, eles estão abertos e nos recebem bem.

 

E isso, para mim, faz do Punjab um bom lugar para viver e visitar.

 

Amritsar, 2017. 

- Guilherme Hoefelmann | Não Me Espera Pro Jantar

 

 

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